segunda-feira, 27 de junho de 2011

Do Mesmerismo ao Reiki e Práticas Semelhantes: Reiki no Ocidente


"... Todos esses movimentos (dedicados às"curas" ditas metafísicas) não representam mais do que diferentes fases do exercício de poderes crescentes - mas ainda não compreendidos e, assim, com demasiada freqüência usados ignorantemente. Compreenda-se, de uma vez por todas, que não há nada de 'espiritual' ou 'divino' nessas manifestações. As curas por eles efetuadas são devidas, simplesmente, ao exercício inconsciente de poderes ocultos nos Planos inferiores da natureza - usualmente do Prana ou das correntes vitais. As conflituantes teorias sustentadas por essas escolas estão baseadas em conceitos metafísicos mal compreendidos ou mal aplicados, frequentemente em lógicas falaciosas grotescamente absurdas.(...) Este é um dos maiores perigos do novo ciclo, agravado enormemente pela pressão competitiva e pela luta pela existência..."
Helena P. Blavatsky, 1890 (in Collected Writings, Vol. XII, pág.155)

Mesmer...
Em 1770, um médico vienense, de nome Franz Anton Mesmer, suspeitando da importância e da influência do magnetismo terrestre na funcionalidade biológica dos seres vivos, empreendeu progressivas experimentações visando confirmar a sua tese.
Ia mais longe, ainda, nas suas cogitações: considerava que todos os organismos vivos manifestavam, correspondentemente, propriedades de magnetismo análogas ou afins às da Mãe Terra.
De fato - pensava ele - todos os corpos dos seres animados, tanto quanto os dos seres comummente (e de modo não rigoroso) chamados "inanimados" (o reino mineral) são constituídos de substância responsiva ao magnetismo terrestre e, até, em muitos casos que se constatara, às suas leis da orientação magnética universal. Essa premissa abria-lhe campos inexplorados e promissores no tocante à restauração de equilíbrios em organismos afetados pela doença.
E pensava: neste imenso Cosmos, com todas as suas inteligentes leis, tudo se alinha com tudo, e tudo está interdependente de tudo. Na verdade, a Terra está alinhada com a polaridade Norte-Sul do Sistema Solar e, este, com outras Unidades Coletivas maiores ainda… neste gigantesco Complexo Sideral (além de médico, ele era um vivo amante da Astronomia e da Astrologia).

Assim, inclinava-se, igualmente, para a conclusão de que o fluido que influenciava as pessoas (e, designadamente, o seu estado de saúde) proveniente das Estrelas e Planetas era da mesma natureza eletromagnética que reconhecia emanando dos magnetos e de todos os organismos vivos terrestres. Havia-se constatado que:
A Terra se comportava como um portentoso íman, sendo que os pólos (demonstradamente) consubstanciavam e fluíam eletricidade bipolar: o Norte, de polaridade positiva; o Sul, de eletricidade negativa. Por outro lado, essa característica e essas propriedades eram transferidas e repercutidas (ad infinitum) em algumas substâncias naturais precisamente denominadas ímans: seccionadas indefinidamente, conservavam as mesmas virtualidades em matéria de equilíbrios eletromagnéticos e de orientação bipolar.
(E refletia ele) As inumeráveis jazidas de diferentes minérios existentes no subsolo da Terra configuravam sistemas "inteligentes" de distribuição e equilíbrio dessas mesmas energias eletromagnéticas, funcionando como feixes nervosos (e os chamados "meridianos" da cultura médica chinesa - acrescentamos nós), condutores das correntes vitais (o equivalente aos sistemas circulatórios sanguíneo e linfático nos animais, e à seiva no reino vegetal).
Tendo-se evidenciado, designadamente, que diversos minerais e outras substâncias (o ferro, a magnetita, o âmbar…) eram possuidores dessas propriedades de magnetismo e que, inclusive, os próprios seres humanos (e não só) tinham na sua constituição biológica ferro e outros numerosos metais em diferentes proporções1, ele cogitou que bem poderia ser que igualmente eles constituíssem canais condutores de eletricidade e magnetismo (energia vital).
Daí, tendeu, fortemente, para a probabilidade de que a doença - o desequilíbrio funcional biológico - fosse o resultado direto de uma "despolarização" ou "descompensação" dessa energia, do que decorreria a deficiência no desempenho de diversos órgãos e - inclusive, e em cadeia - dos sistemas orgânicos funcionais a eles afetos ou subordinados.
Ponderando que um afluxo energético poderia, por diversas contingências, ficar bloqueado e "estagnado" ou, pelo contrário, deficitário numa dada região corporal, deduziu que o restabelecimento desses equilíbrios determinaria a recuperação do estado de saúde dos indivíduos. Procedeu, então, a uma curiosa experiência:
 
 As suas experiências e a sua importância
Preparou uma tina de madeira, imantada, cujo fundo cobrira de vidro e limalha de ferro. Submeteu, depois, vários pacientes voluntários à emersão na referida tina, assim perspectivando avaliar se, de fato, os pacientes lograriam retirar a energia que lhes faltava dessa exposição aos eflúvios magnéticos. O resultado, assombroso, foi que um considerável número de pacientes se recuperou ou melhorou significativamente de seus males. A par desta investigação, empreendeu muitas outras com varas magnetizadas.
Mais tarde, Mesmer incidiu as suas pesquisas particularmente sobre o magnetismo humano. Começou a efetuar experimentações com a aposição de mãos, induzindo mentalmente o fluxo magnético (a energia do que chamou "magnetismo animal") a passar para os seus pacientes, especificamente para as zonas afetadas (não esqueçamos, que, em todos os condutores energéticos, a energia tende a fluir e a sair pelas pontas…).
Os seres vivos "metabolizam essa energia radical" da Mãe Terra nas suas componentes relativas aos chamados Planos da Forma (Mental inferior; Emocional; Astral, mais tarde chamado Etérico; Físico Químico). Especializam-na e colorem-na com o índice vibratório inerente ao seu próprio psiquismo (note-se que o termo psiquismo se aplica precisamente aos níveis Kama-manásicos e Astrais-Etéricos). De modo que, ao irradiar essas energias (pelas pontas dos dedos ou, meramente, pela intenção direcionada - mental ou com o auxílio do veículo do "olhar"), o homem faz transportar o seu próprio caráter, podendo este ser: a) de inferior (baixo) nível vibratório (correndo-se o risco de degradar mais ainda o foco da afetação do paciente), b) um caráter de nível vibratório relativamente equivalente (e que, portanto, não acrescenta inconveniente neste particular âmbito), c) ou uma emanação de natureza mais refinada e benéfica. Neste aspecto global, a energia proveniente de um íman mineral afigura-se mais inócuo, porque neutro, relativamente ao nosso próprio índice ou nível de consciência.
Em todos os casos, porém, tal ação terapêutica é e será sempre pontual, superficial e passageira - sendo satisfatoriamente apropriada para o reforço energético numa baixa temporária de energia anímico-psíquica, para uma baixa de tensão, para um acidente (ligeiro) hipoglicémico, para uma enxaqueca… Não nos iludamos, pois, nem caiamos na maior inconseqüência e puerilidade pressupondo que este meio de sanação poderá erradicar problemas de fundo - problemas esses que apenas se resolvem com um trabalho conscientemente direcionado de reorientação de pensamento e de reordenação de costumes e atitudes (portanto, de uma autorregeneração ou "alquimia" interior).
Nas doenças já instaladas, será, eventualmente, uma útil complementação de outras terapias mais efetivas e determinadas. Por exemplo, uma tal panacéia externa e, evidentemente, impermanente, não resolverá de raiz o sugadouro ininterrupto, incessante, em termos energéticos, que ocorre quando uma pessoa está sujeita a um contínuo desgaste emocional (stress, aflição, medos, desgostos, preocupações, tensões, carências de vária ordem, etc.).
Na sua época, Mesmer foi muito criticado por diversos setores da comunidade científica que se recusavam a admitir que os seres vivos fossem detentores desse "fluido" eletromagnético. Contudo, no Ocidente, ele foi o precursor do estabelecimento - depois considerado "científico" - das correntes elétricas biológicas que estiveram na base de numerosos estudos posteriores no âmbito da Psicologia/Psiquiatria, da eletrofisiologia aplicada às diagnoses.
Em Cardiologia (através de eletrocardiogramas) e nas Encefalopatias (através de eletroencefalogramas) e, mesmo, de todo o manancial presente e disponível no campo alargado das Ecografias, Ressonâncias magnéticas, etc.

Kardecismo e outras correntes
Retornando, simplesmente, à atuação por simples irradiação volitiva de (a partir de) um ser humano, quase um século depois da polemica de Mesmer, o Movimento Espiritista de Allan Kardec, ramificado em numerosos países, encetou uma prática em muito semelhante à do Mesmerismo.
Presumindo que a causa de numerosas afecções se poderia dever à "desvitalização" provocada por "espíritos desencarnados" que se apropriariam do ectoplasma (a que também chamavam perispírito) dos vampirizados, levaram à prática a reposição dessa energia vital por meio, justamente, da imposição de mãos. Ainda hoje essa medida (a que vulgarmente chamam "fazer passes…"), em concomitância com a da imantação fluídica da água para beber (e com o objetivo, conjunto, de "limpeza psíquica") é comum nos muitos Centros Espíritas disseminados por vários países. Contemporaneamente, uma outra personalidade carismática, Riechenbach, propugnava idênticas práticas e, a essa energia, chamou "ódica".

Entretanto…
Nas últimas décadas do século recém-concluído, outros Movimentos, de procedência oriental - mais propriamente oriundos do Japão -, proliferaram na América e Europa, nomeadamente em Portugal, difundindo esses mesmos meios terapêuticos de irradiação através das mãos.
Ainda outras organizações se especializaram em diversificadas (se bem que semelhantes na essência) metodologias de sanação com recurso a ímans metálicos (apostos de determinada maneira, quase sempre de um e outro lado da região corporal afetada) visando a expulsão de humores negativos causadores de disfunções ou doenças.
Entretanto - e por fim -, diversa literatura pretensamente inovadora (regra geral, sensacionalista) veio implantar o "boom" e fazer crer e circular que o Reiki é uma maravilha recente - mitificando essa prática de todas as formas passíveis de ser empoladas e exploradas. Sustenta-se que é "uma passagem de energia divina" ou "energia universal", definidamente "espiritualizante" - e esotérica (a palavra "mágica" dos nossos dias, infelizmente quase sempre desprovida do correto sentido original).
Sem dúvida que tudo neste mundo é "divino"; assim, toda a energia que se nos infunde e por nós circula é, necessariamente, "divina". Nesse sentido, tudo é um "dom de Deus", mas, nem por isso, vamos dizer que um médico - por se dedicar a curar - é um grande espiritualista exercendo o seu "sacerdócio"… É, pois, abusivo e leviano confundir as coisas e faze-las sair do seu próprio, restrito e legítimo patamar - mesmo que, na sua área (a da sanação), pudessem ser as mais úteis e eficazes.
Hoje em dia - e por tudo e por nada - se puxa pelos pretensos "galões" e "credenciais" que, supostamente, atestam o "alto grau de espiritualidade atingido", e diz-se, ufanamente: "… tenho a 1ª ou tenho a 2ª iniciação do Reiki…" ou "… sou Reikiano/a - (e, com isto, digo tudo…)". Deveras, se atingem foros de alienação coletiva, e se imiscui o verdadeiramente sagrado e digno de ser reverenciado com uma propalada mas vulgar, ainda que relativamente útil ou eficaz, terapia. E mais uma vez, em círculos pretendidamente esotéricos, uma "moda" ou um entretenimento de secundária ou terciária importância real (tal como um rebuçado ou um brinquedo que cativa um bebé) desviam do essencial - no incontornavelmente laborioso e lúcido Caminho Evolutivo que é suposto desejarem percorrer. A tal ponto se chegou, que muitos só a custo ousam confessar que, afinal, até se sentiram mal com essas práticas (tantas vezes, pagas com rios de dinheiro…).
Em todas as épocas, existem e atuam "Forças retrógradas" interessadas em "entreter" e "aquietar" - em suma -, em "aprisionar" a humanidade ainda imatura, precisamente com a puerilidade que ainda lhe é atrativa e afim.
Nada mais fácil do que aproveitar um ensejo ou uma plataforma de aparências inócuas e, até, benfazejas (em princípio, inatacáveis e insuspeitas), escudar-se nelas e mascarar os verdadeiros objetivos embrulhando-os com vistosos invólucros, sugerindo "miríficas" e "beatíficas" realidades…
Posto isto, longe de afrontar o (hoje chamado) Reiki como terapia (domínio onde conhecemos bons amigos e pessoas de sã intenção), o que nos move é a demarcação das suas fronteiras, esclarecendo e desvanecendo a generalizada presunção de que "constitui uma Ciência Espiritual e Espiritua-lizante", ou de que "é um dos Ramos Nobres das Ciências ditas Esotéricas". 
Assim, devemos clarificar as questões mais empolgantes que se têm gerado em torno dessa prática: não alinha os chakras e, muito menos, conduz à sua abertura (o que, aliás, seria desastroso); não alinha todos os sete corpos (!!!) nem limpa todas as respectivas auras; a energia aludida não radica no chakra cardíaco nem é por ele impulsionada; não promove o "milagre" da Evolução Espiritual individual e/ou coletiva; não opera a conexão com o "Eu Superior"; não é veículo de bênçãos de Seres Superiores; não confere nenhum estatuto espiritual particular a quem o pratique.
Pode, contudo (e eventualmente), constituir um expediente (ou suporte) para ajudar a focalizar diversas intenções benéficas e de progresso, do mesmo modo que outros instrumentos operam como pontos de apoio visando os mesmos objetivos - nomeadamente, as mandalas, os terços (ou rosários), as velas, o incenso, mesmo os mantras e orações. Esclareça-se, no entanto, que a verdadeira meditação (em si) é uma coisa totalmente distinta.
Em suma, na Ascensão Espiritual, unicamente a determinação num auto-aprimoramento (que capacite o indivíduo a ser um Servidor) é condição para a Evolução. Tal empreendimento é completamente independente de quaisquer práticas reikianas. Quanto a estas, fiquemo-nos, pois, pelos seus domínios naturais, singelos, e legítimos - (eventualmente) afins com o Shiatsu, o Do-in, a Reflexologia e outras práticas dignas e valorosas nas suas respectivas áreas e competências. E tudo estará certo e nada violará os preceitos da correção, da verdade e da ética…

O Reiki como Culto
Em Esoterismo, o estudo empenhado, e em constância, é absolutamente indispensável. Constitui-se na habilitação progressiva à penetração nos Mistérios e Leis da Natureza.
Facilita e promove a identificação e a comunicabilidade do homem (o Microcosmo) com o Macrocosmo - abrindo portas para uma plena (e) fusão da Vida, no sentido superior da expressão. De molde que, de forma alguma, nos podemos preencher e, tão-pouco, mitigar a "sede" de cumprir, limitando-nos a exercer alguma "generosidade" ao empreender curas provisórias e que mais esforço não exigem de nós do que a permuta, tantas vezes (quase infantilmente) teatralizada, de (perdoem a expressão) "doces e acariciadoras cumplicidades estereotipadas", em ambientes pseudo-espiritualistas a que não faltam requisitos de "perfumes", "velas", "cristais", e outros aparatos suficientemente sensibilizantes…
Depois… depois, vai-se para casa, e a rotina continua intacta, e o mundo continua igual - sem nem mais um acrescento à sua condição substancial e inalteravelmente indefesa; porque, na verdade, a ignorância é o maior dos males, e a acomodação e a inércia, com todos os expedientes que se criam para justificá-los e para nos convencermos de que já somos suficientemente "úteis" e "grandes", é o seu maior propulsor.
Quando estas práticas se tornam um "culto" (como, infelizmente, hoje em dia esse fenômeno é proliferante!), o risco de se "engordar o egocentrismo" é demasiado grande: com efeito, a permuta de "afagos na aura", para cá e para lá, pretensamente legitimados e cunhados com a marca de "espiritualidade" e promotores de "orgulhos e vaidades mascarados", bom resultado real não podem trazer…
É certo que "descomprimem", relaxam e podem produzir bem-estar. E dirão: que mal tem isso? De novo esclarecemos que apenas é incorreto e, mesmo, um logro, se com isso se pretender presumir ou evidenciar a detenção de uma "alta cotação espiritual ou evolutiva" - e que é o que maioritariamente se passa nesses ambientes.

Uma linha-de-menor-resistência...
O perigo é que os ditames e o pensamento da "egrégora" inadvertidamente gerada pelo coletivo (dos cultores ou fiéis) acaba por se substituir ao pensamento individual (que se pretende livre).
Neste tipo de Movimentos, que surgem (que vão e vêm no tempo e no espaço) por ondas, o perigo de alienação, de fato, instala-se.
Dizemos isto com propriedade: conhecemos suficientemente a realidade de dezenas de países através de uma volumosa correspondência que recebemos diariamente (uma vez que o Centro Lusitano de Unificação Cultural tem livros publicados em diversas línguas, que circulam em muitas dezenas de países de 4 Continentes, e que, desses, tem delegações em 26). Por essas cartas (e não só), apercebemo-nos a que foros de alienação chegaram muitas e (já) muito diversificadas organizações que têm o Reiki como o seu supremo pólo de cultura e atuação, arrastando consigo, frequentemente, pessoas bem intencionadas e em busca de poderem ser verdadeiramente úteis.  Isabel Nunes Governo - Vice-Presidente do Centro Lusitano de Unificação Cultural
1 Sabe-se hoje que nos tecidos vivos são os íons inorgânicos que transportam a corrente elétrica. Por exemplo, constatou-se, cientificamente, que ocorre uma transferência da dita corrente partindo de uma zona corporal lesionada para outra sã. Assim, cada traumatismo muscular, cada batimento cardíaco ou cada fenômeno de secreção glandular determinam ou estão associados a mudanças de estado elétrico. As zonas, tecidos ou órgãos afetados (excitados) assumem, então, uma polaridade negativa em relação às zonas ilesas.

segunda-feira, 6 de junho de 2011

Sabedoria Búdica

Certa vez – contava-se – uma mulher jovem e bela viu adoecer e definhar seu filhinho. Quando a vida abandonou o corpo da criança, a mãe enlouqueceu de pesar. Apertando ao peito o filho morto, saiu de casa em casa, pedindo um remédio que lhe restituísse a vida. Por fim, chegou à morada de um monge. Este, apiedado, murmurou consigo mesmo: “Ela não compreende”. E, em voz alta: “Minha pobre filha, eu não tenho o remédio que pedes; mas sei de alguém que o tem”.

“Dize-me quem é!” implorou a mãe.

“É o Buda. A ele é que deves dirigir-te.”

Ansiosamente ela foi em busca de Gautama. E o “Iluminado” declarou: “Sim, conheço o remédio eficaz. É a semente da mostarda.” Mas, quando já a mulher se regozijava com a indicação de remédio tão comum, o profeta continuou: “Tens de obtê-la em alguma casa onde nunca haja morrido nenhum filho, marido, pai ou escravo.”

A jovem mãe partiu em procura do remédio. Aonde quer que fosse, as pessoas se mostravam solícitas em dar-lhe a desejada semente. Mas a mulher perguntava: “Esta casa nunca foi atingida pela morte de nenhum filho, marido, pai ou escravo?” E respondiam-lhe tristemente: “Tal casa não existe em parte alguma. Os mortos são muitos, os vivos, poucos.”
Então, mergulhada em profunda cisma, ela se encaminhou a uma floresta e lá enterrou a criança. Quando tornou para junto de Gautama, este perguntou: “Encontraste a semente da mostarda?” E a mulher respondeu: “Não, meu mestre, mas encontrei a cura. Sepultei a minha dor na floresta. E agora estou pronta para seguir-te em paz.”

Fonte: Henry Thomas e Dana Lee Thomas. Vidas de Grandes Capitães da Fé. RJ: Editora Globo, 1948, p. 42-43.

terça-feira, 26 de abril de 2011

As cartas ciganas e os chacras _ Tania Durão

Chacra em sânscrito significa roda ou círculo, localiza-se no corpo etérico e está intimamente ligado as glândulas, que liberam os hormônios na corrente sanguínea. Os Chacras emanam e absorvem energia, é como se fossem um pulmão energético.

Eu fiz uma associação entre As Cartas Ciganas e os chacras, vejam porquê:

1) Chacra Básico (ou raiz): Materialidade, é a sobrevivência, o ir a luta (estudar, aprender, trabalhar, ter dinheiro para se realizar na vida). Está ligado a glândula supra-renal que libera a adrenalina na corrente sanguínea, sua cor em harmonia é o vermelho e representa a nota Dó.
A Carta que representa o impulso de ir a luta na vida é o Cavaleiro - carta 1.

2) Chacra Sexual (ou umbilical): Sexualidade, a necessidade de se relacionar com o próximo e a criatividade em estabelecer estas relações. Está ligado a glândula gônadas (no homem são os testículos e na mulher são os ovários), sua cor em harmonia é o laranja e representa a nota Ré.
A Carta que representa a sexualidade é a Cobra - carta 7, embora eu diria que a Aliança (ou o anel) - carta 25 também se encaixa neste caso.

3) Plexo Solar: Poder pessoal, emoções "ditas" negativas (ciúme, inveja, raiva). Está ligado ao pâncreas que libera o suco pancreático que ajuda na digestão e é o responsável pela insulina, sua cor em harmonia é o amarelo e representa a nota Mi.
A carta que representa o poder pessoal é o Chicote - carta 11.

4) Chacra Cardíaco: Afetividade (dar e receber amor), sentimentos nobres, compaixão, solidariedade, amor universal. Está ligado a glândula Timo, responsável pelo sistema imunológico, sua cor de harmonia é o verde e representa a nota Fá.
A carta que representa o amor é o Coração - carta 24.

5) Chacra Laríngeo: Comunicação, como expressamos as nossas emoções.
Está ligado as glândulas Tireóide e Paratireóide, que são responsáveis pelo metabolismo do organismo, sua cor de harmonia é o azul claro e representa a nota Sol.
A carta que representa a comunicação é a Carta - carta 27.

6) Chacra Frontal: Percepção extra-sensorial, intuição.
Está ligado a glândula pituitária, que rege todas as outras glândulas, sua cor de harmonia é o azul indigo e representa a nota Lá.
A carta que representa a intuição é a Estrela - carta 16.

7) Chacra Coronário: Portal da espiritualidade, ligação com o nosso Eu Superior, essência divina. Está ligado a glândula pineal, que é responsável pela regulação do sono, sua cor de harmonia é lilás e representa a nota Si.
A carta que representa a alma é o Sol - carta 31.

Tania Durão: 
http://www.ascartasciganas.blogspot.com








Crescendo na real prosperidade


Pergunta a Osho:
Parece-me que os seres humanos sentem que ser eles mesmos não é suficiente. Por que a maioria das pessoas tem tal compulsão para atingir o poder e o prestígio, em vez de apenas ser simples seres humanos?
Essa é uma questão complicada. Ela tem dois lados, e ambos têm de ser entendidos. Primeiro: você nunca foi aceito por seus pais, professores, vizinhos e pela sociedade como você é.
Todos tentaram modificá-lo, torná-lo melhor. Todos apontaram as falhas, os equívocos, os erros, as fraquezas e as fragilidades que todos os seres humanos estão sujeitos a ter. Ninguém enalteceu sua beleza, sua inteligência; ninguém enalteceu sua grandeza.
Só o fato de estar vivo já é um presente, mas ninguém jamais disse para estar grato à existência. Pelo contrário, todos estavam amargurados, reclamando.
Naturalmente, se tudo o que cerca sua vida desde o início vai lhe mostrando que você não é o que deveria ser, vai lhe dando grandes ideais que você deve seguir, que você deve atingir, seu ser nunca é louvado. O que é louvado é seu futuro, se você puder se tornar alguém respeitável, poderoso, rico, intelectual, de alguma forma famoso, e não um simples zé-ninguém.
O constante condicionamento criou em você a ideia de que "eu não sou suficiente como sou, alguma coisa está faltando. E tenho de estar em algum outro lugar, não aqui. Não é neste lugar que eu deveria estar, mas em algum outro lugar mais alto, mais poderoso, mais dominante, mais respeitado, mais bem conhecido".
Essa é a metade da história, que é feia, e não deveria ser assim. Isso pode ser simplesmente removido se as pessoas forem um pouco mais inteligentes como mães, como pais, como professores.
Vocês não devem corromper as crianças, sua autoestima, sua aceitação de si mesmas; devem ajudá-las a crescer. Do contrário, vocês serão um obstáculo ao crescimento. Essa é a parte feia, mas é a parte simples. Ela pode ser removida, porque é muito simples e lógico perceber que você não é responsável pelo que é, foi a natureza que o fez assim. Agora, chorar desnecessariamente sobre o leite derramado é pura estupidez.
Mas a segunda parte é tremendamente importante. Mesmo que todos esses condicionamentos sejam removidos, que você seja desprogamado, que todas essas ideias sejam retiradas de sua mente — ainda assim você vai sentir que não é suficiente; mas essa será uma experiência totalmente diferente. As palavras serão as mesmas, mas a experiência será diferente.
Você não é suficiente porque pode ser mais. Não será mais uma questão de se tornar famoso, respeitável, poderoso, rico. Essa não será mais sua preocupação. Sua preocupação será a de que o seu ser é apenas uma semente.
Ao nascer você não é como uma árvore; você nasce apenas como uma semente, e tem de crescer até o ponto em que floresça; e esse florescimento será seu contentamento, sua realização.
Esse florescer não tem nada a ver com poder, com dinheiro, com política. Tem algo a ver com você; é um progresso individual. E, para isso, o outro condicionamento é um obstáculo, uma distração; é um mau uso do desejo natural de crescer.
Cada criança nasce para crescer e se tornar um ser humano completo, com amor, com compaixão, com silêncio. Ela tem de se tornar uma celebração em si mesma. Não é uma questão de competição, nem mesmo uma questão de comparação.
Mas o primeiro condicionamento o distrai devido à necessidade de crescer, à necessidade de se tornar mais, à necessidade de expandir, que é utilizada pela sociedade, pelos interesses estabelecidos.
Eles distorcem tudo. Enchem sua mente de tal maneira que você passa a pensar que essa necessidade é a de ter dinheiro, que essa necessidade significa estar no topo todos os dias, na educação, na política. Onde quer que você esteja, tem de estar no topo: menos que isso e você sentirá que não está fazendo algo bem, sentirá um profundo complexo de inferioridade.
Todo esse condicionamento produz um complexo de inferioridade porque visa a torná-lo superior, superior aos outros. Ele ensina a competição, a comparação, ensina a violência, a luta. Ensina que os meios não importam, o que importa são os fins — o sucesso é a meta. E isso pode ser facilmente realizado porque você já nasce com uma necessidade de crescer, com uma necessidade de estar em outro lugar.
Uma semente precisa fazer uma longa viagem até se transformar em flor. É uma peregrinação. A necessidade é bela. Ela lhe é dada pela própria natureza. Mas a sociedade, até agora, tem sido muito esperta; ela altera, desvia, distorce seus instintos naturais em algo de utilidade social.
Esses são os dois lados que lhe dão a sensação de que, onde quer que você esteja, algo está faltando; você quer ganhar algo, alcançar algo, tornar-se um realizador, um alpinista.
Agora, é preciso ser inteligente para perceber qual é sua necessidade natural e o que é o condicionamento social. Corte o condicionamento social — é tudo porcaria —, de forma que a natureza permaneça pura, não poluída.
E a natureza é sempre individualista. Você crescerá e florescerá, e poderá ter muitas rosas. Alguns podem crescer e se tornar margaridas. Você não é superior porque tem rosas; ele não é inferior porque tem margaridas. Ambos floresceram, esse é o ponto; e esse florescimento traz um profundo contentamento.
Todas as frustrações, todas as tensões desaparecem; uma profunda paz prevalece sobre você, a paz que ultrapassa o entendimento. Mas primeiro você deve eliminar completamente a porcaria social; de outra forma ela o distrairá.
Osho, em "Dinheiro, Trabalho, Espiritualidade"

domingo, 10 de abril de 2011

PERGUNTAS IDIOTAS TOLERÂNCIA ZERO!!!

1. Quando te vêem deitado, de olhos fechados, na sua cama, com a luz apagada e te perguntam:
- Você tá dormindo?
- Não, to treinando pra morrer!

2. Quando a gente leva um aparelho eletrônico para a manutenção e o técnico pergunta:
- Ta com defeito?
- Não, é que ele estava cansado de ficar em casa e eu o trouxe para passear.

3. Quando está chovendo e percebem que você vai encarar a chuva, perguntam:
- Vai sair nessa chuva?
- Não, vou sair na próxima.

4. Quando você acaba de levantar, aí vem um idiota (sempre) e pergunta:
- Acordou?
- Não. Sou sonâmbulo!


5. Seu amigo liga para sua casa e pergunta:

- Onde você está?
- No Pólo Norte! Um furacão levou a minha casa pra lá!


6. Você acaba de tomar banho e alguém pergunta: (BOA)

- Você tomou banho?
- Não, mergulhei no vaso sanitário!


7. Você tá na frente do elevador da garagem do seu prédio e chega um que pergunta: (ÓTIMA)

- Vai subir?
- Não, não, to esperando meu apartamento descer pra me pegar.


8. O homem chega à casa da namorada com um enorme buquê de flores. Até que ela diz:

- Flores?
- Não! São cenouras.


9. Você está no banheiro quando alguém bate na porta e pergunta:
- Tem gente?
- Não! É o cocô que está falando!


10. Você chega ao banco com um cheque e pede pra trocar: (MUITO BOA)

- Em dinheiro? ?
- Não, me dá tudo em clipes!

JAPÃO, por Monja Coen


Quando voltei ao Brasil, depois de residir doze anos no Japão, me incumbi da difícil missão de transmitir o que mais me impressionou do povo Japonês: 
Kokoro(心) ou Shin significa coração-mente-essência.
Como educar pessoas a ter sensibilidade suficiente para sair de si mesmas, de suas necessidades pessoais e se colocar à serviço e disposição do grupo, das outras pessoas, da natureza ilimitada?
Outra palavra é Gaman(我慢): aguentar, suportar.  Educação para ser capaz  de suportar dificuldades e superá-las.
Assim, a tragédia de 11 de março, no Nordeste japonês, surpreenderam o mundo  de duas maneiras.
A primeira pela violência do tsunami e dos vários terremotos, bem como dos perigos de radiação das usinas nucleares de Fukushima.
A segunda pela disciplina, ordem, dignidade, paciência, honra e respeito de todas as vítimas.
Filas de pessoas passando baldes cheios e vazios, de uma piscina para os banheiros.
Nos abrigos, a surpresa das repórteres norte americanas: ninguém queria tirar vantagem sobre ninguém.  Compartilhavam cobertas, alimentos, dores, saudades, preocupações, massagens. Cada qual se mantinha em sua área.  As crianças não faziam algazarra, não corriam e gritavam, mas se mantinham no espaço que a família havia reservado.
Não furaram as  filas para assistência médica – quantas pessoas necessitando de remédios perdidos- mas esperaram sua vez também para receber água, usar o telefone, receber atenção médica,  alimentos, roupas e escalda pés singelos, com pouquíssima água. 
Compartilharam também do resfriado, da falta de água para higiene pessoal e coletiva, da fome, da tristeza, da dor, das perdas de verduras, leite, da morte.
Nos supermercados lotados e esvaziados de alimentos, não houve saques.  Houve a resignação da tragédia e o agradecimento pelo pouco que recebiam.  Ensinamento de Buda, hoje enraizado na cultura e chamado de kansha no kokoro(感謝の心): coração de gratidão.
Sumimasen(すみません é outra palavra chave.  Desculpe, sinto muito, com licença. Por vezes me parecia que as pessoas pediam desculpas por viver.  Desculpe causar preocupação, desculpe incomodar, desculpe precisar falar com você, ou tocar à sua porta.  Desculpe pela minha dor, pelo minhas lágrimas, pela minha passagem, pela preocupação que estamos causando ao mundo.  Sumimasem.
Quando temos humildade e respeito pensamos nos outros, nos seus sentimentos, necessidades. Quando cuidamos da vida como um todo, somos cuidadas e respeitadas.
O inverso não é verdadeiro: se pensar primeiro em mim e só cuidar de mim, perderei.  Cada um de nós, cada uma de nós é o todo manifesto.
Acompanhando as transmissões na TV e na Internet pude pressentir a atenção e cuidado com quem estaria assistindo: mostrar a realidade, sem ofender, sem estarrecer, sem causar pânico.  As vítimas encontradas, vivas ou mortas eram gentilmente cobertas pelos grupos de  resgate e delicadamente transportadas – quer para as tendas do exército, que serviam de hospital, quer para as ambulâncias, helicópteros, barcos, que os levariam a hospitais.
Análise da situação por especialistas, informações incessantes a toda população pelos oficiais do governo e a noção bem estabelecida de que “somos um só povo e um só país”.
Telefonei várias vezes aos templos por onde passei e recebi telefonemas.  Diziam-me do exagero das notícias internacionais, da confiança nas soluções que seriam encontradas e todos me pediram que não cancelasse nossa viagem em Julho próximo.
Aprendemos com essa tragédia  o que Buda ensinou há dois mil e quinhentos anos: a vida é transitória,  nada é seguro neste mundo,  tudo pode ser destruído em um instante e reconstruído novamente.
Reafirmando a Lei da Causalidade podemos perceber como tudo  está interligado e que nós humanos não somos e jamais seremos capazes de salvar a Terra.  O planeta tem seu próprio movimento e vida.  Estamos na superfície, na casquinha mais fina.  Os movimentos das placas tectônicas não tem a ver com sentimentos humanos, com divindades, vinganças ou castigos.  O que podemos fazer é cuidar da pequena camada produtiva, da água, do solo e do ar que respiramos.  E isso já é uma tarefa e tanto.
Aprendemos com o povo japonês que a solidariedade leva à ordem, que a paciência leva à tranquilidade e que o sofrimento compartilhado leva à reconstrução.
Esse exemplo de solidariedade, de bravura, dignidade, de humildade, de respeito aos vivos e aos mortos ficará impresso em todos que acompanharam as tragédias que se seguiram a 11 de março.
Minhas preces, meus respeitos, minha ternura e minha imensa tristeza em testemunhar tanto sofrimento e tanta dor de um povo que aprendi a amar e respeitar. 
Haviam pessoas suas conhecidas na tragédia?, me perguntaram. E só posso dizer : todas.  Todas eram e são pessoas de meu conhecimento.  Com elas aprendi a orar, a ter fé, paciência, persistência.  Aprendi a respeitar meus ancestrais e a linhagem de Budas.
Mãos em prece (gasshou) 合掌
Monja Coen


sábado, 9 de abril de 2011

O QUE É VIVER BEM?



Um repórter perguntou à CORA CORALINA (poeta que viveu até 95 anos) o que é viver bem?
Ela disse-lhe: “Eu não tenho medo dos anos e não penso em velhice.  E digo prá você, não pense. Nunca diga estou envelhecendo ou estou ficando velha. Eu não digo. Eu não digo que estou ouvindo pouco. É claro que quando preciso de ajuda, eu digo que preciso.
Procuro sempre ler e estar atualizada com os fatos e  isso me ajuda a vencer as dificuldades da vida. O melhor roteiro é ler e praticar o que lê. O bom é produzir sempre e não dormir de dia.
Também não diga prá você que está ficando esquecida, porque assim você fica mais. Nunca digo que estou doente, digo sempre: estou ótima. Eu não digo nunca que estou cansada. Nada de palavra negativa. Quanto mais você diz estar ficando cansada e esquecida, mais esquecida fica. Você vai se convencendo daquilo e convence os outros.
Então silêncio! Sei que tenho muitos anos. Sei que venho do século passado, e que trago comigo todas as idades, mas não sei se sou velha não. Você acha que eu sou?

Tenho consciência de ser autêntica e procuro superar todos os dias minha própria personalidade, despedaçando dentro de  mim tudo que é velho e morto, pois lutar é a palavra vibrante que levanta os fracos e determina os fortes.
O importante é semear, produzir milhões de sorrisos de solidariedade e amizade. Procuro semear otimismo e plantar sementes de paz e justiça. Digo o que penso, com esperança. Penso no que faço, com fé. Faço o que devo fazer, com amor. Eu me esforço para ser cada dia melhor, pois bondade também se aprende.”

Cora coralina morreu em 1985 aos 95 de idade, cuidou do seu interior mais do que seu exterior, tinha todas as linhas da vida no rosto, e que vida !
 
Assim eu vejo a vida
A vida tem duas faces:
Positiva e negativa
O passado foi duro
mas deixou o seu legado
Saber viver é a grande sabedoria
Que eu possa dignificar
Minha condição de mulher,
Aceitar suas limitações
E me fazer pedra de segurança
dos valores que vão desmoronando.
Nasci em tempos rudes
Aceitei contradições
lutas e pedras
como lições de vida
e delas me sirvo
Aprendi a viver.
Cora Coralina

terça-feira, 5 de abril de 2011

Despedida do TREMA

Não sei quem escreveu, mas quem assina é o TREMA...
É uma tremenda aula de criatividade e bom humor, por sinal, com acentuada inteligência. A consequência não poderia ser outra: uma agradável leitura, que pode até ser usado em aula, de várias formas.

 Estou indo embora. 
 Não há mais lugar para mim. Eu sou o trema. Você pode nunca ter reparado em mim, mas eu estava sempre ali, na Anhangüera, nos aqüíferos, nas lingüiças e seus trocadilhos por mais de quatrocentos e cinqüenta anos.
Mas os tempos mudaram. Inventaram uma tal de reforma ortográfica e eu simplesmente tô fora. Fui expulso pra sempre do dicionário. Seus ingratos! Isso é uma delinqüência de lingüistas grandiloqüentes!...
O resto dos pontos e o alfabeto não me deram o menor apoio... A letra U se disse aliviada porque vou finalmente sair de cima dela. Os dois pontos disse que eu sou um preguiçoso que trabalha deitado enquanto ele fica em pé.
Até o cedilha foi a favor da minha expulsão, aquele C cagão que fica se passando por S e nunca tem coragem de iniciar uma palavra. E também tem aquele obeso do O e o anoréxico do I. Desesperado, tentei chamar o ponto final pra trabalharmos juntos, fazendo um bico de reticências, mas ele negou, sempre encerrando logo todas as discussões. Será que se deixar um topete moicano posso me passar por aspas?... A verdade é que estou fora de moda. Quem está na moda são os estrangeiros, é o K e o W, "Kkk" pra cá, "www" pra lá.
Até o jogo da velha, que ninguém nunca ligou, virou celebridade nesse tal de Twitter, que aliás, deveria se chamar TÜITER. Chega de argüição, mas estejam certos, seus moderninhos: haverá conseqüências! Chega de piadinhas dizendo que estou "tremendo" de medo. Tudo bem, vou-me embora da língua portuguesa. Foi bom enquanto durou. Vou para o alemão, lá eles adoram os tremas. E um dia vocês sentirão saudades. E não vão agüentar!...
Nós nos veremos nos livros antigos. Saio da língua para entrar na história.

Adeus, Trema.